Pancreatite em cães: entendendo a influência da hiperlipidemia.

A associação entre hiperlipidemia e pancreatite em cães é amplamente reconhecida na clínica, mas muitas vezes explicada de forma simplificada como “excesso de gordura na dieta”. Na prática, o mecanismo é mais complexo e envolve alterações hemodinâmicas e inflamatórias que afetam diretamente a microcirculação pancreática.

Neste artigo do Scienza Animali, o foco é entender como a hiperlipidemia pode contribuir para o desenvolvimento de pancreatite em cães, especialmente por meio do aumento da viscosidade sanguínea e da lipotoxicidade local.


Hiperlipidemia no cão: quando a gordura deixa de ser apenas nutricional

Em cães, a hiperlipidemia clinicamente relevante é, na maioria das vezes, caracterizada por hipertrigliceridemia persistente, e não apenas por picos pós-prandiais.

Ela pode ocorrer em contextos como:

  • hiperlipidemia primária em raças predispostas

  • obesidade

  • diabetes mellitus

  • hiperadrenocorticismo

  • hipotireoidismo

  • dietas ricas em gordura associadas a esses fatores

 

O que é hiperviscosidade e por que o pâncreas sofre com isso?

A hiperviscosidade refere-se ao aumento da resistência do sangue ao fluxo. Em cães com hipertrigliceridemia significativa, o plasma pode se tornar lipêmico, com grande quantidade de partículas lipídicas volumosas.

Esse ambiente favorece:

  • redução da velocidade do fluxo capilar

  • estase microvascular

  • prejuízo da perfusão tecidual

O pâncreas é altamente dependente de fluxo sanguíneo adequado. Alterações discretas na perfusão microvascular já são suficientes para gerar hipóxia local e injúria acinar, criando um terreno favorável à ativação precoce de enzimas digestivas.

A sequência fisiopatológica mais aceita envolve dois eixos que se retroalimentam.

  • Alteração vascular: a hiperviscosidade e a presença excessiva de lipoproteínas grandes podem comprometer a microcirculação pancreática, levando à hipóxia tecidual e à injúria celular inicial.
  • Lipotoxicidade local: com a injúria pancreática, há extravasamento de lipase para o interstício. A lipase hidrolisa triglicerídeos locais e circulantes, liberando ácidos graxos livres. Esses ácidos graxos são citotóxicos, alteram membranas celulares, estimulam inflamação local e promovem necrose gordurosa peripancreática.

Forma-se um ciclo de hipoperfusão, inflamação e necrose que pode evoluir rapidamente para pancreatite aguda clinicamente relevante.

E por que esse mecanismo é muito mais comum no cão do que no gato?

Embora não seja o foco principal deste texto, vale contextualizar que os gatos, de modo geral, não desenvolvem hipertrigliceridemia persistente com a mesma frequência que os cães.

Felinos tendem a remover lipídios da circulação de forma mais eficiente e raramente apresentam estados de lipemia sustentada capazes de alterar significativamente a viscosidade sanguínea. Por isso, a hiperviscosidade tem papel muito menos relevante como gatilho de pancreatite nessa espécie.

Implicações clínicas práticas:

Entender esse mecanismo muda o raciocínio clínico. Em cães com pancreatite, especialmente quando recorrente, é fundamental investigar:

  • níveis de triglicerídeos

  • presença de obesidade

  • possíveis endocrinopatias

  • histórico dietético e de petiscos

Tratar apenas o episódio de pancreatite sem abordar o ambiente metabólico que sustenta a hiperlipidemia aumenta o risco de recorrência.